HOMOSSEXUALIDADE E PRECONCEITO
in SOMOS, 1, ano 1, SP, jun. 2000
A
noção de uma sexualidade normal cujo desvio, a depravação,
é definida como "contra a natureza", encontra sua base
na concepção teológica de uma Natureza Humana. Esta
posição filosófica, derivada do pensamento grego
e que postula a existência de inclinações naturais
nas coisas, foi incorporada à tradição judaico-cristã,
acrescida da idéia de pecado, e passou a constituir as bases dos
valores morais da cultura ocidental. Alegando-se uma natureza comum aos
homens e aos animais, toda vez que a sexualidade desvia da finalidade
primeira, natural e universal que a referência animal nos mostra
- união de dois orgãos sexuais diferentes para a preservação
da espécie - estamos diante de uma perversão, ou seja, de
uma prática sexual contra a natureza: pedofilia, masturbação,
heterossexualismo separado da procriação, homossexualismo,
sodomia...
Este
discurso teológico levou a certas ações jurídicas
destinadas a reprimir todo ato "contra a natureza". As práticas
perversas foram consideradas um atentado ao pudor ou à opinião
pública, acarretando severas sanções.
A psiquiatria clássica que surge no século XIX dá
continuidade às posições teológicas e jurídicas.
Por outro lado, ela alega que aqueles que têm práticas sexuais
contra a natureza devem ser tratados e não punidos: o que é
penal passa a ser da ordem médica. Algumas práticas sexuais
são então qualificadas de "patológicas",
o que faz surgir novas formas de perversões e novas nomenclaturas
na tentativa de definir a sua especificidade. É assim que, por
exemplo, que o médico húngaro Benkert cria em 1869 o termo
de "homossexualidade" a fim de transferir do domínio
jurídico para o médico esta manifestação da
sexualidade. Entretanto, a louvável atitude do Dr Benkert ao despenalizar
o homossexualismo teve conseqüências que foram potencializadas
no século XX: os comportamentos sexuais transformaram-se em identidades.
Pois enquanto o sodomita era aquele que praticava atos jurídicos
proibidos, o homossexual do Séc. XIX transformou-se em um personagem.
Nada de seu todo escapa à sexualidade. O sujeito passou a ser julgado,
valorizado, aceito ou rechaçado a partir de sua prática
sexual.
Se em nossa cultura ocidental a referência judaico-cristã
marcou fortemente aquilo que seria "normal" em termos de prática
sexual, estudos sócio-antropológicos são ricos em
exemplos que mostram como outras culturas têm concepções
diferentes da sexualidade. À parte os conhecidos exemplos da Antiguidade
Clássica temos outros povos, como certas nações indígenas
do Brasil, onde a prática de "fazer cunin", fazer sexo,
é muito comum e explícita principalmente entre os solteiros.
Hoje sabemos que o ser humano é regido pela dimensão do
desejo que, submetido às leis da linguagem, frustra qualquer apreensão
direta de sua finalidade. Ao buscar o prazer, a sexualidade escapa à
ordem da natureza e age a serviço próprio "pervertendo"
seu suposto objetivo natural: a procriação. Subordinar a
sexualidade à função reprodutora é "um
critério demasiadamente limitado", adverte Freud. Isto vem
mostrar à biologia, à moral, à religião e
à opinião popular, o quanto elas se enganam no que diz respeito
à natureza da sexualidade humana: a sexualidade humana é,
sem si, perversa - entendida aqui em seu sentido primeiro: desvio de uma
finalidade específica. Ou seja, em se tratando de sexualidade,
não existe "natureza humana" pois a pulsão sexual
não tem um objeto específico, único e muito menos
pré-determinado biologicamente.
Tanto
o heterossexualismo quanto o homossexualismo são posições
libidinais e identificatórias que o sujeito alcança dentro
da particularidade de sua história: as duas formas de manifestação
da sexualidade são igualmente legítimas. Tratar o homossexualismo
como perversão, depravação, pecado e outros tantos
adjetivos é uma visão reducionista e preconceituosa, reflexo
do imaginário judaico-cristão, que privilegia problemas
de alcova - situa os principais pecados da humanidade nos quartos de dormir!
- deixando fora do debate as verdadeiras questões éticas.
Paulo
Roberto Ceccarelli*
e-mail:
pr@ceccarelli.psc.br
*
Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental
e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação
Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro
da "Société de Psychanalyse Freudienne", Paris,
França; Consultor científico (Editorial Reader) do "International
Forum of Psychoanalysis"; Membro do Conselho Científico da
Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista
Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG
TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor no Departamento de Psicologia
da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional
de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).
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